Santa Casa de Misericórdia de Jacareí

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santa casa de jacareí - 1950

Santa Casa de Misericórdia de Jacareí – 1950

Há muito tempo tenho como hobby escarafunchar as histórias da nossa cidade. Como é um passatempo, minhas fontes de informação são os livros, jornais e, muito frequentemente, a internet. Recentemente, porém, mantive um contato mais próximo com o objeto de estudo: a Santa Casa de Misericórdia de Jacareí. Esta aproximação me fez repensar minhas atitudes, me posicionar diante de uma situação e colocar em ação uma campanha de ajuda ao hospital. Apesar de pequena, choveram críticas e pingaram apoios. Este post tornou-se, portanto, uma pedra no meu sapato e passou por diversos ajustes. Foi realmente difícil recontar a história sem deixar margens para embates políticos. Confesso que às vezes falhei neste aspecto.

Nossa Santa Casa passa por uma das piores crises de sua história, fato que não é “privilégio” de Jacareí. Os hospitais filantrópicos foram por muito tempo esquecidos pelos sucessivos governos, gerando uma crônica crise financeira, agravada pelos baixos valores pagos pelo SUS. Em 2003, a Prefeitura de Jacareí considerou que o hospital beirava um estado de “calamidade pública” e decretou uma intervenção. Desde então, a Santa Casa passou a ser o principal assunto nas “batalhas políticas verbais”, um mote nas campanhas eleitorais. Quem tem razão? O que podemos fazer? Particularmente, optei por tratar o assunto somente olhando o lado humanitário, deixando as questões políticas para outra ocasião. Encarar ambas as frentes seria praticamente impossível e demasiadamente cansativo.

Assim, recentemente, apoiado por diversos amigos, lancei pela internet a campanha “Um grama de ação vale mais que uma tonelada de teoria”. Prestes a iniciar a 4ª edição, o único hospital de portas abertas da cidade já recebeu travesseiros, cadeiras de rodas e cadeiras de banho. Infelizmente, as lides político-partidárias muito têm atrapalhado nossas campanhas e diretamente os assistidos pela Santa Casa. Mas isso não é novidade. Como verão a seguir, ao longo da história essa interferência ocorreu outras vezes.

as 3 campanhas

Qualquer literatura sobre a Santa Casa passa obrigatoriamente pela obra de Rogélio Rodrigues: “Santa Casa de Misericórdia de Jacareí – Seu Primeiro Século de Existência”. Membro da irmandade da Santa Casa desde a segunda década do século passado, o autor, genro do Doutor Pompílio Mercadante, enfrentou muitas dificuldades para escrever seu pequeno e histórico livro. Muito material havia se perdido no tempo, fruto do descaso e do desconhecimento. Mesmo assim, o escritor conseguiu “dentre traças e a poeira de um século” levantar precioso conteúdo histórico.

livro

As primeiras instituições de assistência no Brasil, as Misericórdias, tinham um mesmo modelo: a religiosidade e a execução de obras em benefício dos doentes e miseráveis. Na teoria, (somente na teoria) gozariam da proteção dos poderes públicos. Na verdade, viveram por muito tempo das benesses de poucos benfeitores que as consideravam uma obra de caridade (não um hospital), destinadas aos pobres e forasteiros que a elas recorriam como último recurso. Ricos e remediados nem passavam perto, pois até o século 18 as Santas Casas serviam tanto para a assistência como também para a exclusão, separando os doentes das pessoas sãs da sociedade. Os pacientes dos hospitais não estavam destinados à cura, mas à morte.

Na Jacareí do século 19, a situação também era precária. As pessoas de posses eram atendidas em suas casas ou recorriam aos grandes centros. Viajantes eram tratados na cadeia por falta de lugar mais salubre. Os “pobres, necessitados e escravos”, a maior parcela da população, procuravam socorro com boticários ou “curandeiros”.

Cirurgião negro colocando ventosas. OR1909. DEBRET, Jean Baptiste.

“Cirurgião negro colocando ventosas”                                           (Jean Baptiste Debret)                                                              Imagem Ilustrativa

Em 1850, Jacareí tinha menos de dez mil habitantes. Um médico português aqui radicado, Dr. Joaquim Moutinho dos Santos, sentindo as necessidades da cidade, idealizou a instalação de um hospital. No Consistório da Igreja Matriz ele reuniu-se com a nata da sociedade, entre eles o Barão de Jacareí e o Barão de Santa Branca, além do Padre Manoel Joaquim Rodrigues da Silva. Juntos, todos “abraçaram” a ideia e “tomaram a pesada tarefa de fundar uma casa de amparo aos enfermos pobres”: estava instalada a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Jacareí.

Por onde começar?  Onde conseguir dinheiro para tal obra? Naquela época, as verbas vinham exclusivamente da Província (Estado). A Câmara local possuía um único poder: pedir. Na ocasião, outra grande obra local também buscava por recursos e obtinha mais sucesso no recebimento de donativos: a reforma e ampliação da Igreja Matriz.

A primeira grande contribuição saiu dos bolsos dos principais líderes políticos locais: o Coronel Gomes Leitão e o Barão de Jacareí. Eles “racharam” uma conta de 1.200$000 (um conto e duzentos mil réis), adquiriram um terreno no fim da Rua Direita, em frente à Rua Nova (ruas Antonio Afonso e Corneteiro Jesus, respectivamente) e doaram à Irmandade. Dr. Moutinho, o idealizador, elaborou a “planta”, o projeto do futuro hospital e por doze anos acompanhou as obras da Santa Casa, retornando à Portugal em 1862.

Vendo a história contada por Rogélio, quem seria considerado o fundador da nossa Santa Casa? Uma ata de 1926 traz uma lista de 19 irmãos somente pelo fato de terem assinado as duas primeiras atas. O autor do livro que me serviu de referência reduziu o número a apenas 06, alguns não presentes na lista oficial. O que me causou estranheza foi a ausência do Coronel Leitão em ambas as listas. Por que teria ficado de fora sendo ele o co-doador do dinheiro para a compra do terreno? Mesmo sendo membro da primeira mesa diretora e participando ativamente nos anos subsequentes, o Coronel foi esquecido. Em 1926, estaria já estigmatizado com o rótulo de traficante de escravos?  Mesmo condenado pela sociedade, não se pode negar a sua enorme importância na realização da obra.

GOMES LEITÃO, CEL

Coronel Gomes Leitão

O primeiro provedor foi o Comendador Francisco de Paula Machado. Contudo o Barão de Santa Branca exerceu o cargo interinamente até a primeira eleição.  Para participar da irmandade os homens não precisavam ter posses, entretanto deveriam saber ler e escrever além de serem declaradamente católicos.

Apesar dos trabalhos preliminares terem iniciado em 1850, a obra somente tomou impulso três anos depois. Como você pode imaginar, o problema era um só: dinheiro. A irmandade fazia de tudo para angariar fundos: “loterias” eram realizadas, damas da sociedade doavam jóias e donativos eram sempre bem-vindos. Muitos cidadãos contribuíam indiretamente, fornecendo mão-de-obra de seus escravos para aplainar o terreno, cavar valas e compactar as taipas.

E assim o prédio foi sendo erguido, lentamente. Em 1854 chegou à primeira subvenção do poder público provincial. Compraram telhas e madeiras para o telhado. A escada e a calçada interna, feitas em pedra, a grade e o portão de ferro vieram entre 1857/1858.

Em 1861 a Santa Casa foi oficialmente inaugurada sob a proteção de sua majestade, a Imperatriz Teresa Cristina.

No ano de sua inauguração foi contratado o primeiro enfermeiro: Claudio José Franco, que com sua mulher e domésticos foram morar no hospital. Cuidavam dos doentes além de costurar e lavar as roupas. O primeiro médico, como não podia deixar de ser, foi o idealizador do hospital, o Dr. Joaquim Moutinho.

Não pensem que a partir da inauguração tudo estava concluído. Em 1863, a Santa Casa ainda não funcionava regularmente. O prédio não tinha reboco: nem dentro, nem fora. Por muitos anos improvisaram-se panos como forros.

E assim, na penúria, foram os primeiros anos do hospital. A primeira subvenção da Câmara local (não havia Prefeitura) só viria em 1894 (44 anos depois da fundação). Os donativos eram escassos, eram irrisórias as diárias pagas pelos senhores de escravos no internamento dos negros. As comarcas vizinhas, São José dos Campos, Santa Branca e Santa Isabel, constantemente enviavam doentes para Jacareí, mas pouco ou nunca contribuíram com o hospital.

Assim como hoje, as desavenças políticas tumultuavam e prejudicavam a rotina do hospital. Em 1856, o Barão de Jacareí retirou-se da Irmandade por uma desavença com o Coronel Leitão (transposição do Rio Paraíba). O povo, observando as divergências entre os Irmãos, passou a negar apoio a Instituição (toda semelhança é mera coincidência).

Em 1887, a situação ficou tão crítica que a Santa Casa deixou de receber doentes e foi dando alta aos pacientes internados. Trancaram-se as portas e as chaves foram entregues ao Juiz que, àquela época, acertadamente, pediu o banimento completo da política na Instituição. Grande sacada!! Fica a dica.

O hospital só reabriu em 1889 graças aos esforços do Professor Francisco Antunes da Costa. Como provedor, ele conseguiu uma fonte apreciável de rendimentos para a Santa Casa: a exclusividade dos serviços fúnebres em Jacareí. Sobre este assunto, há um fato interessante: os indigentes mortos na Santa Casa eram inicialmente transportados em redes até o sepulcro. Somente em 1884 foi comprado um caixão, que era “emprestado” para o transporte do defunto até o cemitério.

FRANCISCO ANTUNES DA COSTA(X)

Francisco Antunes da Costa

relogio da santa casa

Relógio da Santa Casa foi doado em 1897 por Dª Maria Barbosa de Aguiar

No começo do século XX nova turbulência agita o cotidiano do hospital. Rixas políticas dividem a Irmandade. Um grupo dissidente, liderado pelo chefe político local, apoderou-se das chaves do hospital e passou a comandá-lo, destituindo a mesa legalmente eleita. Somente muitos anos depois a ordem foi restituída. Impressionante, não é?

Diante de tantas dificuldades, em 1907 iniciaram as tentativas para trazer irmãs de caridade para a direção dos serviços de enfermagem, fato que somente se consumou em 1929 quando irmãs franciscanas vieram de Pindamonhangaba.

corpo clinico

Corpo Clínico e as Irmãs Franciscanas              Década de 1950

Curioso saber que até 1910, quando foi instituído um ordenado, todos os médicos trabalhavam de graça. Em 1946 foi criado o corpo clínico do hospital composto por oito médicos sob direção do Dr. Pompílio Mercadante.

pompilio mercadante

Dr.Pompílio Mercadante e seu busto na entrada do hospital

bercario

Berçário

enfermaria II

Enfermaria Masculina

sala de cirurgia II

Sala de Cirurgia

mesa administrativa 1950 II

Mesa Administrativa – 1950
                        Ao centro, o provedor Manoel Máximo

pavilhão da maternidade II

Pavilhão da Maternidade inaugurado em 1946

Em 1950, com a presença de inúmeras autoridades civis e eclesiásticas, comemorou-se o primeiro centenário da Santa Casa. Em memória das lutas da instituição naqueles 100 anos, um obelisco foi colocado à entrada do hospital. Nele, placas de bronze eternizam os nomes de vários de seus administradores. O livro de Rogélio termina suas histórias neste período e desta forma uma grande lacuna de tempo acabou ficando sem registro. Com certeza existem vários fatos e casos que precisam ser resgatados, contados e principalmente esclarecidos.

100 anos

Comemoração do centenário da Santa Casa

BENFEITORES DA SANTA CASA

Benfeitores da Santa Casa de Jacareí
          Barão de Santa Branca – Alfredo Schurig
          Irene Pucci Affanato – Manoel Máximo

 

FOTOS DA CAPELA

1 – Em 1936 a capela do hospital foi reformada com doações de Alfredo Schurig
2 – Imagem de Santa Isabel
3 – Vitraux ofertado por Alfredo Schurig Filho
4 – Vitraux ofertado por Luiz D’Angelo

De todo modo, progressivamente a Santa Casa foi se organizando e obtendo boa reputação e confiabilidade. Inúmeros provedores passaram por sua administração. Muitas foram as crises. Queremos crer que todos os problemas atuais sejam resolvidos com brevidade. E que, em 2050, nas comemorações do seu bicentenário, haja alguém disposto a escrever uma história com final feliz.

santa casa final 3

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